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Minha condução veio logo depois. Quando recostei a cabeça naquela falsa almofada do assento, me dei conta de uma coisa. Tinha sido a primeira vez que eu cumprimentava um travesti. Novamente sorri, mas dessa vez, ninguém viu.
Meu triste coração palpita,
Pela brita do amor, apedrejado
Aleijado se arrastou pra beira-mar
Sem respirar, uma onda o levou
Agora fico aqui a ver navios
Com arrepios aguardo um sinal
Para bem ou pra mal, na praia estou
Pois se me vou, ele pode retonar
Meu coração se perdeu
Nas vagas do mar se deixou levar
Meu peito, oco, imerso na saudade
Sensibilidade já não sabe o que é...
Sentada no trapiche solitário
Vejo um moço e uma rede em sua mão
Senhorita, choras por algum naufrágio?
Choro, meu senhor, por meu pobre coração
Ele pega em seu barco uma caixinha
E ao abrí-la, que surpresa se mostrou!
Sinhazinha, seque pois tua tristeza
Teu coração em minha rede se enroscou
Meu coração se perdeu
Nas vagas do mar se deixou levar
Meu peito, oco, imerso na saudade
Sensibilidade já não sabe o que é...
Meu pobre coração não respirava
Desacordado, nem me reconheceu
Já nem batia, não lembrava o meu nome
Mais uma vez pulsou e assim morreu...
A água lá do mar meus olhos veio encher
Os braços do rapaz, meu choro recolher
Ora, pescador, como lhe posso dar amor
Se o mar, que é tua paixão, afogou meu coração?
Meu coração se perdeu
Nas vagas do mar se deixou levar
Meu peito, oco, imerso na saudade
Sensibilidade já não sabe o que é...

Há muito tempo que eu saí de casa
Há muito tempo que eu caí na estrada
Há muito tempo que eu estou na vida
Foi assim que eu quis, e assim eu sou feliz
Principalmente por poder voltar
A todos os lugares onde já cheguei
Pois lá deixei um prato de comida
Um abraço amigo, um canto prá dormir e sonhar
E aprendi que se depende sempre
De tanta, muita, diferente gente
Toda pessoa sempre é as marcas
Das lições diárias de outras tantas pessoas
E é tão bonito quando a gente entende
Que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá
E é tão bonito quando a gente sente
Que nunca está sozinho por mais que pense estar
É tão bonito quando a gente pisa firme
Nessas linhas que estão nas palmas de nossas mãos
É tão bonito quando a gente vai à vida
Nos caminhos onde bate, bem mais forte o coração...
Gonzaguinha
Jovens não deveriam morrer.
Não por uma questão de justiça, porque se dependesse só dela, nenhum ser humano seria vivente na face da terra. Se temos vida, agradeçamos à misericórdia da Providência, que de algum modo sobrenatural concilia justiça e misericóridia. Quem pensa o contrário é porque ainda não se deu conta de sua própria condição humana, nunca reparou que o universo jamais conspirará a nosso favor, já que nós, homens, somos o ponto de desequilíbrio e a ruína de toda harmonia cósmica.
Jovens não deveriam morrer, mas morrem.
O que nos prende a esse mundo? Há um padrão para quem fica e para quem vai? Em milênios de existência, nossa espécie não conseguiu encontrar resposta. Nâo é nossa força, não são nossos sonhos, não é a nossa relevância social; nada disso nos garante algo. Não é o nosso potencial ainda em desenvolvimento, não é a carreira promissora, não é a qualidade das nossas amizades, não é o amor que se nos devotam. Não é a nossa juventude. Nada. Não há nada que nos prenda à existência.
Jovens não deveriam morrer, mas morrem, quando menos esperam.
Como Benjamin Button, cada dia a mais é um dia a menos, e vivemos nos escondendo atrás de sonhos, planos, mandingas ou quaisquer outros engodos. O relógio de nosso pulso é horário, e corre na direção oposta ao cronômetro da vida.
Jovens não deveriam morrer, mas morrem.
Salomão disse, em Eclesiastes 12: "Lembre-se do seu Criador nos dias da sua juventude (...). Sim, lembre-se dele antes que se rompa o cordão de prata, ou que se quebre a taça de ouro; antes que o cântaro se despedace junto à fonte, a roda se quebre junto ao poço...". Nossa vida a terra pode acabar em plena atividade. E não entendemos isso. Nunca chegaremos a entender, porque nossos ponteiros estão descompassados do relógio original.
Jovens não deveriam morrer.
Há quem vá à escola e não estude. Há quem faça amor e jamais seja um com seu parceiro. Há quem tenha dinheiro e não o use. Há quem venha à vida e não goze de sua plenitude. Há quem seja jovem e não se lembre do seu Criador.
Qual é o sentido dessa vida? Prostituí-la como fazemos com nossos corpos e valores?
Não, não se lembre do seu Criador para certificar uma apólice de seguros nesta vida ou na que há de vir. Não prostitua suas lembranças dEle. Lembre do seu Criador antes que você também grite ou sussure: "Nada faz sentido, nada faz sentido! Vaidades de vaidades, tudo é vaidade..."
Jovens.
Talvez a morte não nos faça sentido. Mas, ao nos lembrar de nosso Criador, percebemos que Ele nos tira para dançar ao som da sinfonia que Ele compôs. Sem atropelos, sem ansiedade. Em sua dança há fartura de ritmo, de sentido, de sentimentos, de sensações. E a morte deixa de ser um absurdo, porque para Ele, ela não existe mais. Também não existirá para nós.
Bruno...
Qual valsa você dançou? Em que fonte seu cântaro se quebrou? Eu não sei...
Quando a vida se despedaça, nossos restos voltam à terra, o perfume evapora, mas a fragância fica.
Você não pode mais me ouvir, e acho que nunca te disse algo de valor. Não adianta mais dizer agora. Por isso enderecei a outros minha homenagem a você. Fico com essa dívida impagável.
Termino. Com lágrimas descendo. Se eu pudesse voltar a um só recreio da escola, depois de qualquer partida de pingue-pongue em que você sempre me ganhava, eu teria dito: "Cuco, lembre-se daquEle que te criou".
"Sobre todos os cumes
É o silêncio
Na copa de todas as árvores
Você sente
Apenas um suspiro
Os passarinhos se calam na floresta.
Tenha paciência, logo
Você descansará também."
Esses versos passavam diante dos meus olhos quando o ônibus arrancou rumo ao centro da cidade. Não planejava fazer nenhuma exegese do texto, mas também não esperava que minha leitura fosse interrompida pela onda insuportável de calor e suor que arrombou as portas no ponto seguinte. Nem precisei do relógio pra saber que horas eram. Sem que ninguém pedisse, o portão da escola de quatro andares se engasgava de tanto gritar: são cinco da tarde, são cinco da tarde!
De igual forma, as crianças que se autodenominavam adolescentes alastravam suas vozes por todos os lados. O barulho dos tênis que subiam pesadamente as escadas tornava o ar ainda mais denso. Um terrível mau-humor entrou no ônibus junto com aqueles estudantes, e se sentou bem no meu colo.
Quem me conhece sabe que tenho profunda simpatia por efusões juvenis. Infelizmente, sei distinguir espontaneidade e alegria de exibicionismo e inconveniência gratuita. Quis respirar fundo para suportar aquela violência sensitiva, mas seria pior. Contentei-me em revirar os olhos.
Por sorte, a distância entre minha casa e o centro é curta, logo chegou minha hora de descer. Um senhor de fartos cabelos brancos, que não escondeu muito bem seu desconforto diante da má educação daquelas crianças colocou-se à porta, próximo a mim. Oonibus começou a diminuir a velocidade.
- Não me empurra, não ta vendo que tem um moço aqui?
- Deixa esse velho descer primeiro pra não atrapalhar a gente.
- Velho não, senhor de idade - retrucou a primeira voz.
Não consegui distinguir se aquele tom sugeria uma repreensão ou uma zombaria velada. Resolvi não pensar sobre isso. Quando a porta se abriu, esperei que o senhor saísse, e nem precisei me dar ao trabalho de descer, pois uma pressão ardente e contínua me pôs pra fora. Queria andar o mais rápido posível para retirar aquela sensação opressora e invasiva da minha pele.
À minha frente estava o senhor, com passos firmes e contrariados. Com desprezo ele cuspiu na roda dianteira do ônibus.
Quando voltei pra casa, enquanto subia a ladeira da minha rua, cheguei à conclusão de que a diferença entre oprimidos e opressores é uma simples questão de oportunidade.
O carteiro que trabalha na minha rua é amigo de infância do meu pai. Quando eles se encontram, ou meu pai finge chateação por só chegarem contas e nenhuma carta, ou o carteiro comenta das peladas no campinho da Central , ou uma essas generalidades de velhos conhecidos. Ele me conhece por tabela sem nunca ter puxado papo, creio que por respeito à ausência do meu pai nos horários comerciais.
Mas sabe que ontem ele falou comigo? É que chegou uma encomenda pra mim, e lá de dentro ouvimos: "Carteiro! ". Eu apareci na porta descalça, e, quando ele percebeu, caminhou até a varanda para me entregar o pacotinho, assim mesmo, por livre e espontânea vontade, só para eu não pisar na grama. Depois desse gesto de delicadeza, olhou meu nome no envelope e disse: "Aí, Manueli, hoje você está acordada! Que bom!" Dei um sorriso amarelo de quem não entendeu nada e ele explicou: "Semana passada eu cheguei aqui e você estava dormindo na rede. Vim bem devagarzinho colocar a carta na caixa só pra você não acordar. Você dormia tão solta que até suspirava..." E deu um sorrisão. Fiquei tão boba com isso que nem consegui continuar a conversa. Da janela do quarto, minha mãe acenou, e recebeu o cumprimento de volta. Assinei a folhinha e entreguei pra ele, que ainda com o sorriso, montou na moto e se despediu. Fiquei com o pacote na mão olhando pra estrada. Tomara que na quarta-feira ele passe aqui em casa por volta das quatro e meia da tarde. Vou até oferecer um cafezinho pra ele.
[ onde eu estava? ] [ páginas empoeiradas ]